“Nem sempre a violência sangra”: palestra alerta para o controle patrimonial contra mulheres

Hodirley Canguçu/Esmat A imagem mostra o auditório do Tribunal de Justiça do Tocantins durante o evento “Violência Patrimonial Contra a Mulher”, reunindo autoridades, especialistas e o público para debater o tema sob a perspectiva de gênero.

A violência patrimonial contra a mulher não deixa necessariamente marcas visíveis no corpo, mas pode comprometer a liberdade, a autonomia e a possibilidade de recomeço. Essa foi uma das falas da advogada Miriane Ferreira durante o evento “Violência Patrimonial Contra a Mulher: Reconhecimento, Invisibilidade e Resposta Institucional sob a Perspectiva de Gênero”, realizado nesta quarta-feira (17/6), no auditório do Tribunal de Justiça do Estado do Estado do Tocantins (TJTO).

Com mais de mil pessoas inscritas, a atividade, promovida pelo TJTO, por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) e da Escola Superior da Magistratura Tocantinense (Esmat), reuniu magistradas(os), servidoras(os), integrantes do Sistema de Justiça, profissionais da rede de proteção, estudantes e demais pessoas interessadas no enfrentamento à violência contra a mulher.

Ministrada pela mestra em Direito e Tecnologia, e especialista em Direito de Família e Sucessões, a palestra focou no “reconhecimento, na invisibilidade e na resposta institucional sob a perspectiva de gênero”. Com uma abordagem técnica, sensível e acessível, a palestrante conduziu uma reflexão sobre como o controle do dinheiro, dos bens, dos documentos, das informações patrimoniais e da autonomia econômica pode manter mulheres presas a relações marcadas pela desigualdade e pela violência.

Logo no início da exposição, Miriane chamou a atenção para a dificuldade de reconhecer uma violência que, muitas vezes, acontece em situações cotidianas e é naturalizada nas relações familiares. Ao explicar que nem toda violência se manifesta por agressões físicas, sintetizou destacando que “nem sempre a violência sangra”.

A especialista enfatizou que a violência patrimonial está prevista na Lei Maria da Penha e pode se manifestar por meio da retenção, da subtração ou da destruição de bens, de documentos, de instrumentos de trabalho, de valores e de direitos. Também citou exemplos como controle do salário, retenção de cartão, impedimento ao trabalho, dívidas feitas em nome da mulher e exclusão das decisões financeiras da família.

Para Miriane, a violência patrimonial não deve ser confundida com falta de recursos ou dificuldade financeira. O ponto principal, explicou, está no controle exercido sobre a mulher. Nesse contexto, resumiu:

é poder, não necessidade.

A advogada também destacou que essa forma de violência não atinge apenas mulheres em situação de dependência econômica. E embora a dependência financeira possa ser um fator de risco, a violência patrimonial, segundo ela, também alcança mulheres com renda própria, formação acadêmica e atuação profissional consolidada.

Em sua abordagem, Miriane reforçou que a escolaridade, a profissão ou a classe social não impedem que uma mulher seja submetida a mecanismos de controle econômico. Outro ponto abordado foi a sofisticação das práticas de ocultação e de manipulação patrimonial em contextos de maior poder econômico. A palestrante explicou que, em alguns casos, a violência pode aparecer em estruturas aparentemente legítimas, como empresas, holdings, movimentações societárias, ocultação de bens e assimetria de informações em processos de divórcio, de união estável e de partilha.

A palestra também discutiu os impactos da chamada vitimização secundária, quando a mulher, ao buscar ajuda, encontra respostas institucionais que não reconhecem a violência sofrida ou que a expõem a novos constrangimentos. Nesse ponto, Miriane defendeu a importância de uma atuação atenta do Sistema de Justiça, capaz de diferenciar conflitos patrimoniais comuns de situações em que o patrimônio é usado como instrumento de dominação.

A partir do Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, a palestrante destacou a necessidade de novas lentes para compreender desigualdades estruturais que atravessam as relações familiares e os processos judiciais. Em sua conclusão, ressaltou que a resposta institucional passa pelo uso efetivo dos instrumentos já existentes e por uma escuta comprometida com a realidade das mulheres.

“Não precisamos, necessariamente, de novas leis. Precisamos de novas lentes”, reforçou.

Acolhimento e proteção

Na abertura do evento, a juíza Cirlene Maria de Assis Santos Oliveira, coordenadora da Cevid e do Programa de Proteção, Acolhimento Humanizado e Solidário às Mulheres do Poder Judiciário Tocantinense (PAHS), ressaltou que a realização da atividade abre novas frentes de diálogo e de cooperação do TJTO com a dignidade, com a segurança e com os direitos das mulheres. Ao destacar o papel do programa, a magistrada reforçou que o PAHS nasceu para oferecer proteção, escuta e apoio às mulheres do Poder Judiciário Tocantinense.

“O PAHS existe para nos proteger. O PAHS existe para nos acolher”, afirmou.

Cirlene lembrou que o programa, lançado há pouco mais de três anos, foi criado com uma missão que vai além da organização de fluxos administrativos. Trata-se de uma rede institucional voltada a acolher sem julgamento, proteger sem revitimização e apoiar sem discriminação.

“Assumimos o compromisso de dizer, de forma clara e inequívoca, a cada mulher do Poder Judiciário Tocantinense: Você não está sozinha”, declarou.

A magistrada também pontuou que a violência financeira retira autonomia, liberdade e dignidade, podendo manter mulheres presas a ciclos de violência. Durante a solenidade, a juíza ressaltou a importância da participação dos homens no enfrentamento à violência contra a mulher, especialmente por meio da campanha “Homens do Judiciário pelo Respeito às Mulheres”. Segundo a juíza, homens que não praticam violência também não podem permanecer indiferentes diante dela, devendo atuar como aliados e agentes de transformação social.

Violência invisibilizada

A juíza Flávia Afini Bovo, diretora do Foro da Comarca de Palmas e presidente da Comissão de Prevenção e Enfrentamento do Assédio Moral e do Assédio Sexual de 1º Grau, também chamou a atenção para a invisibilidade da violência patrimonial.

Além disso, ao trazer a perspectiva de quem atua diretamente com situações relacionadas à temática, a juíza comentou que a escolha do tema contribui para ampliar a visibilidade de uma forma de violência que, embora prevista na legislação e presente nas relações familiares, ainda é pouco compreendida pela sociedade.

“A violência patrimonial é invisível [...] é um tema que socialmente não é tão retratado e não é tão falado. Então, mais do que louvável essa iniciativa”, disse.

O psicólogo Sérgio Baggio, do Núcleo de Acolhimento e Acompanhamento Psicossocial do Tribunal de Justiça, abordou a violência contra a mulher como fenômeno transversal, relacionado a aspectos históricos, culturais, sociais e antropológicos. Em sua fala, destacou que compreender a violência de gênero exige refletir sobre os papéis atribuídos a homens e a mulheres e sobre os valores que estruturam as relações sociais desde a infância.

Representando a Assessoria Militar do TJTO, Nicéia Monteiro da Rocha Marques apresentou a atuação da unidade em situações relacionadas à segurança institucional. Ela destacou que a Assessoria Militar está disponível ao Judiciário Tocantinense, até mesmo em casos envolvendo violência patrimonial, e conta com plantão 24 horas. Também reforçou que as situações encaminhadas são tratadas com sigilo.

A abertura também contou com a presença do juiz auxiliar da Presidência do TJTO, Ariostenis Guimarães Vieira, representando a presidente do Tribunal, desembargadora Maysa Vendramini Rosal; do secretário estadual de Segurança Pública do Tocantins, Luciano Barbosa de Souza Cruz; e de representantes das unidades que integram a rede interna de proteção do Judiciário Tocantinense.

Resposta institucional

A atividade integra as ações do PAHS, instituído pela Resolução nº 18, de 2023, e tem como objetivo promover reflexão técnica e interdisciplinar sobre a violência patrimonial contra a mulher nas relações familiares, com enfoque no reconhecimento jurídico das formas contemporâneas de controle econômico, invisibilização patrimonial e vulnerabilidade feminina no acesso à Justiça.

Ao final, a palestrante Mirian deixou uma mensagem de acolhimento e mobilização, sublinhando que reconhecer a violência patrimonial é o primeiro passo para interromper ciclos de controle, fortalecer a autonomia das mulheres e ampliar a capacidade institucional de proteção.

“Não é só sobre patrimônio – é sobre liberdade de recomeçar” –, marcou.


Fechar Menu Responsivo
Busca Processual Jurisprudência Diário da Justiça
Rolar para Cima
Nós usamos cookies
Usamos cookies ou tecnologias similares para finalidades técnicas e, com seu consentimento, para outras finalidades, conforme especificado na política de cookies. Negá-los poderá tornar os recursos relacionados indisponíveis.