Iniciativa do Judiciário tocantinense ajuda consumidores a reconstruir a vida financeira

Lucas Nascimento Imagem de uma calculadora sobre uma mesa, exibindo números no visor, ao lado de vários cartões de crédito parcialmente sobrepostos. À direita, há uma agenda com datas marcadas e anotações, acompanhada de uma caneta.

Cartão de crédito estourado, empréstimos que se acumulam e contas que já não cabem no orçamento. Para muitos(as), essa realidade passou a integrar o cotidiano. Em janeiro deste ano, 79,5% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

No Tocantins, os dados também acendem um alerta. Informações do SPC Brasil indicam aumento de 10% na inadimplência entre 2022 e 2023. Em Palmas, levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) aponta crescimento de 12% no número de inadimplentes no mesmo período, seguido de leve recuo de 3% entre 2023 e 2024.

Na Semana do Consumidor, que marca o dia 15 de março, o Poder Judiciário do Tocantins amplia o olhar sobre essa realidade e reforça um papel que vai além da solução de conflitos. A atuação envolve orientação, prevenção e a construção de caminhos para que o(a) cidadão(ã) recupere o equilíbrio financeiro e a dignidade. Em Palmas, esse suporte se concretiza por meio do Programa Cejusc Repactuar.

Desenvolvido pelo Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) Ulbra, o programa tem como foco a construção de soluções consensuais entre consumidores e credores, aliando educação financeira e reorganização das dívidas de forma responsável e sustentável.

Reunião de atendimento no CEJUSC, com equipe e participantes reunidos em torno de uma mesa redonda durante uma audiência de conciliação. Ao centro, uma mediadora conduz o diálogo, enquanto os demais acompanham com documentos em mãos. Ao fundo, banner do programa CEJUSC Repactuar reforça o foco na reorganização financeira.

O diferencial está na forma de atuação. Em vez de negociações isoladas, o programa reúne todos os credores em uma única audiência, o que permite a construção de um plano de pagamento mais realista e equilibrado. A proposta transforma o acolhimento ao consumidor em política pública efetiva.

O procedimento ocorre em duas etapas. A primeira consiste na fase conciliatória, com atendimento inicial, orientação financeira e tentativa de acordo coletivo. Caso não haja consenso, a situação segue para análise judicial, que pode estabelecer um plano compulsório de pagamento.

Todo o processo se apoia em três pilares essenciais: preservação do mínimo existencial, prazo de pagamento de até cinco anos e equilíbrio entre as partes.

Além da renegociação de dívidas, o programa também atua na prevenção. O curso “Minhas Contas em Dia”, realizado em parceria com a Escola Superior da Magistratura Tocantinense (Esmat), já impactou dezenas de consumidores em Palmas.

Sala de aula com atividade do programa CEJUSC Repactuar, onde uma instrutora conduz o curso de educação financeira “Minhas Contas em Dia”. Participantes estão sentados, atentos à apresentação exibida em projetor, que aborda organização das finanças pessoais. Ao lado, um banner do programa reforça a proposta de orientação e renegociação de dívidas.

Entre 2025 e 2026, o curso já alcançou 170 alunos, o que demonstra a crescente procura por orientação financeira.

O trabalho também inclui a realização de audiências de conciliação e atendimentos voltados ao superendividamento. Em 2025, o Cejusc Ulbra realizou 220 audiências e, em 2026, já contabiliza 26, além de diversos atendimentos pré-processuais, fortalecendo o acesso à justiça de forma prática e humanizada.

 

Recomeço

A história de “Carlos” (nome fictício) traduz o que os números não mostram. Por anos, ele recorreu ao crédito como alternativa para lidar com imprevistos. A cada aperto, um novo empréstimo. A cada respiro, o limite do cartão novamente comprometido. Pouco a pouco, as contas deixaram de caber no orçamento, e o que parecia solução passou a representar um problema crescente e silencioso.

Com margem consignável disponível, utilizava o crédito sempre que necessário. Ao mesmo tempo, mantinha o cartão no limite. Até perceber que já não conseguia organizar a própria vida financeira sem comprometer o básico.

A mudança começou com informação. Ao conhecer a Lei nº 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, teve acesso a um novo caminho. A legislação atualizou o Código de Defesa do Consumidor e passou a proteger pessoas que, de boa-fé, não conseguem pagar suas dívidas sem comprometer despesas essenciais.

Após análise detalhada da sua situação, o caso seguiu para o Cejusc Ulbra, onde iniciou um processo estruturado de reorganização financeira.

Carlos participou do curso “Minhas Contas em Dia”, etapa fundamental para compreender, na prática, como reorganizar o orçamento e evitar novos endividamentos. Em seguida, recebeu orientação de um educador financeiro, que o auxiliou na construção de um plano de pagamento compatível com sua realidade.

Com o plano definido, participou da audiência de conciliação com os credores. Conseguiu acordo com parte deles. Para as demais dívidas, especialmente com instituições bancárias, o caso seguiu para decisão judicial.

A decisão garantiu a adoção do plano apresentado, com condições mais justas e adequadas à sua capacidade financeira. O resultado trouxe alívio , pois reduziu aproximadamente R$ 270 mil no valor total das dívidas.

Para Carlos, o impacto vai além dos números. Representa a possibilidade de sair do sufoco, voltar a planejar o futuro e recuperar a dignidade.

Histórias como essa revelam que, por trás das estatísticas, existem pessoas em busca de um novo começo. E mostram que, quando há orientação, estrutura e acesso à justiça, recomeçar passa a ser possível.

 

Acolhimento e transformação

Para a juíza coordenadora do Cejusc, Umbelina Lopes Pereira Rodrigues, o tratamento do consumidor superendividado representa um dos avanços mais relevantes do direito do consumidor nos últimos anos, “ao reconhecer que o endividamento excessivo não se limita a uma questão financeira, mas configura também um problema social que impacta diretamente a dignidade da pessoa humana.”

Segundo a magistrada, o programa contempla a realização de audiências coletivas de renegociação de dívidas, com a participação de todos os credores, o que permite a construção de um plano estruturado, viável para o consumidor, com preservação do mínimo existencial e, ao mesmo tempo, satisfação dos credores.

“Mais do que resolver conflitos, o projeto busca devolver ao consumidor a possibilidade de recomeçar, com dignidade e autonomia financeira. Tratar o superendividamento é, antes de tudo, devolver dignidade ao consumidor e garantir condições reais para que ele reescreva sua própria história financeira”, destaca a juíza Umbelina Lopes.

 

Estrutura

O Cejusc Ulbra conta com um servidor, assessor jurídico da 2ª Vara Criminal e Execuções Penais da Comarca de Porto Nacional, da qual a juíza coordenadora é titular, que auxilia nas atividades do Centro. Acadêmicos do curso de Direito que atuam como voluntários, conforme escala pré-definida.

 

Como buscar atendimento no Cejusc Ulbra

Ambiente interno de atendimento do CEJUSC, com mesa redonda ao centro cercada por cadeiras, preparada para reuniões ou audiências de conciliação. Ao fundo, um banner do programa CEJUSC Repactuar com imagem de moedas empilhadas, remetendo à organização financeira. À direita, há uma mesa de trabalho com computador, teclado e documentos, compondo um espaço funcional e acolhedor voltado ao atendimento do público.

 

Interessados em buscar ajuda podem procurar o Cejusc Ulbra, pelo e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou telefone: 3219-8095.

O Cejusc está localizado no Centro Universitário Luterano de Palmas (Ceulp Ulbra), na Avenida Siqueira Campos (antiga Teotônio Segurado), 1501 Sul, Palmas - Bloco 6 - Curso de Direito, em frente ao SAJULP.

 

⏹MACRODESAFIO
Prevenção de Litígios e Adoção de Soluções Consensuais para os Conflitos

⏹MACRODESAFIO
Garantia dos Direitos Fundamentais 

⏹MACRODESAFIO
Fortalecimento da Relação Institucional do Poder Judiciário com a Sociedade 

 

 


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