Uma estante começa a ganhar livros enquanto crianças se aproximam para escolher o que ler, e o espaço passa, aos poucos, a tomar a forma do projeto que a comunidade deseja ver ali: uma biblioteca aberta aos(às) moradores(as). No Quilombo Rio Preto, localizado no município de Lagoa do Tocantins, a chegada de 327 obras literárias arrecadadas pela Escola Superior da Magistratura Tocantinense (Esmat) marca o primeiro passo para a formação desse acervo comunitário.
A entrega foi realizada durante agenda da Biblioteca da Esmat na região do Jalapão, entre os dias 11 e 13 de setembro, e integra as ações de responsabilidade social desenvolvidas pela Escola para incentivar a leitura e contribuir com o acesso à educação, à inclusão, à igualdade de oportunidades e à valorização da identidade cultural das comunidades atendidas.
Além dos livros, o espaço recebeu uma estante de aço para organização do acervo e outros itens destinados às crianças e aos(às) moradores(as), levados por iniciativa pessoal da bibliotecária da Escola e coordenadora do projeto de arrecadação, Silvânia Olortegui.

Os exemplares passam agora a compor o primeiro acervo da biblioteca comunitária idealizada pela Associação do Quilombo Rio Preto. Em depoimento, a presidente da Associação, Rita Lopes dos Santos, contou que a biblioteca é um desejo antigo da comunidade. A intenção é fazer do local um espaço coletivo para leitura e estudo, que possa ser utilizado por crianças, jovens e demais moradores(as).
“É o início de um sonho. [...] A gente precisa iniciar de alguma maneira. Se for esperar para que tudo esteja perfeito para começar, a gente nunca começa”, afirmou.
Segundo Rita, as crianças já começaram a utilizar o espaço, mesmo antes de a estrutura estar completamente pronta.
Leitura dentro do próprio território
Ter livros disponíveis no Quilombo Rio Preto assume um significado ainda maior diante da realidade educacional vivenciada pelas famílias da comunidade. A Escola Municipal Bibiano Ferreira Lopes, localizada no território, está sem funcionamento desde 2019. Com isso, crianças e adolescentes precisam se deslocar para estudar fora da comunidade.
A situação tem sido acompanhada pela Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO), que ajuizou Ação Civil Pública envolvendo, entre outras questões, as condições do transporte escolar e providências relacionadas à unidade de ensino.
Em decisões proferidas em 2025, o Poder Judiciário determinou medidas voltadas à oferta de transporte escolar adequado aos(às) estudantes enquanto persistir a impossibilidade de funcionamento da escola.
A biblioteca não substitui a escola, mas oferece algo que hoje faz falta no território, um lugar onde os livros permaneçam disponíveis e possam fazer parte da rotina das famílias.
O vice-presidente da Associação do Quilombo Rio Preto, José Tomaz Lopes da Silva destacou justamente o tempo que as crianças passam em deslocamento e a possibilidade de terem, na própria comunidade, um espaço para leitura.
“Foi o primeiro passo dessa biblioteca. O presente, o futuro maior das nossas crianças é aquele livro. [...] O conhecimento que elas adquirirem ninguém vai tirar delas; elas vão ter para sempre”, afirmou.
José também explicou que a comunidade já dispõe do espaço onde o acervo será mantido e pretende ampliá-lo futuramente, para que as famílias possam levar as crianças para ler e estudar nos períodos em que estiverem em casa.
Cerca de 30 famílias permanecem no Quilombo Rio Preto. Para a Associação, ter um espaço coletivo de leitura dentro da comunidade também significa criar novas possibilidades de convivência e estudo sem que, para isso, seja necessário sair do território.
Mais de 7 mil livros já doados
A entrega no Rio Preto faz parte de um trabalho coordenado por Silvânia Olortegui desde 2019. Ao longo desses anos, as campanhas organizadas pela Biblioteca da Esmat já destinaram mais de 7 mil livros a escolas públicas, projetos comunitários, comunidades indígenas e quilombolas, unidades penais e outras instituições do Tocantins.
Uma das primeiras ações ocorreu em 2019, quando 802 exemplares foram arrecadados para a Escola de Tempo Integral Sueli de Almeida Reche, que atendia estudantes moradores de assentamentos da região.
Em 2022, uma campanha destinada à Escolinha de Reforço Alegria de Saber, em Miracema, reuniu cerca de 1.160 exemplares entre obras literárias, livros didáticos e gibis. No mesmo ano, aproximadamente 700 livros chegaram à Unidade Penal Regional de Palmas para apoiar as atividades de leitura e o projeto de remição de pena.
As ações continuaram em 2023. Em junho, cerca de 200 obras, com atenção especial à literatura infantil, foram destinadas à comunidade indígena Awã Canoeiro, na Ilha do Bananal. Em novembro, outros 800 livros foram entregues às unidades penais de Araguaína, onde passaram a contribuir com o projeto de Remição pela Leitura.
Em 2024, a campanha chegou a diferentes pontos do Estado. A Escola Municipal Horácio José Rodrigues, na Comunidade Quilombola Barra do Aroeira, recebeu 365 livros em junho. Em setembro, foram destinados 168 exemplares à Escola Silvério Ribeiro de Matos, no Quilombo Mumbuca. Já em novembro, 445 obras arrecadadas pela campanha Ler Liberta foram entregues à Unidade de Tratamento Penal do Cariri, em Gurupi.
No ano seguinte, a mobilização alcançou novamente uma comunidade indígena. Em setembro de 2025, 192 obras literárias foram entregues ao Centro de Ensino Médio Indígena Xerente Warã, em Tocantínia, com o objetivo de fortalecer o acervo utilizado pelos(as) estudantes Akwẽ-Xerente.
Esse percurso reúne apenas algumas das destinações feitas desde o início do projeto. Em cada campanha, os livros arrecadados são direcionados de acordo com a realidade do local atendido, seja para reforçar uma biblioteca escolar, iniciar um acervo comunitário, incentivar a leitura entre crianças e adolescentes ou apoiar projetos desenvolvidos dentro das unidades penais.
Para Silvânia, a continuidade desse trabalho ajuda a aproximar os livros de pessoas e comunidades que nem sempre têm o mesmo acesso a acervos e materiais de leitura.
“Em muitas comunidades, o acesso aos livros ainda é limitado. Quando conseguimos fazer esses exemplares chegarem até esses espaços, ajudamos a reduzir um pouco essa desigualdade e, ao mesmo tempo, estimulamos a leitura, a educação e o desenvolvimento da própria comunidade”, destacou.
Uma campanha que passou a ser permanente
Em abril deste ano, a Esmat deu continuidade ao trabalho desenvolvido nos anos anteriores com o lançamento da campanha permanente Doe Livros. Desde então, a Biblioteca recebe durante todo o ano obras literárias novas ou usadas em bom estado de conservação, destinadas posteriormente a unidades prisionais, bibliotecas quilombolas, indígenas e comunitárias e a outras instituições.
A mudança permite que a arrecadação não fique restrita a períodos específicos e que novos exemplares sejam reunidos continuamente para futuras ações. No Quilombo Rio Preto, os novos livros ficam agora na própria comunidade, ao alcance de crianças, jovens e adultos que começam a construir a rotina desse novo espaço. Rita resumiu esse momento de uma forma simples, mas significativa:
“As crianças estão animadas. É o início de um sonho”, disse.
A campanha Doe Livros permanece aberta durante todo o ano. As doações podem ser entregues na Biblioteca da Esmat, na sede da Escola.
Registros no Quilombo Mumbuca
A agenda da Biblioteca da Esmat na região do Jalapão também incluiu uma visita ao Quilombo Mumbuca, em Mateiros, durante a XVIII Festa da Colheita do Capim Dourado. Desta vez, a passagem pela comunidade teve outro propósito: registrar imagens que vão compor uma Bibliografia de Letramento Racial, com lançamento previsto para